Disco 1 de tributo ao Skank soa acima da média de projeto 'indie' do gênero
16/06/2017 - 14h22 em Novidades

 

No momento em que o Skank volta ao mercado fonográfico com cover reverente de A hard day's night (John Lennon e Paul McCartney, 1964), rock dos Beatles regravado pelo quarteto mineiro para o tema de abertura da recém-estreada novela Pega pega (TV Globo, 2017), o primeiro volume de um disco duplo em tributo ao legado de Samuel Rosa (voz e guitarra), Haroldo Ferretti (bateria), Henrique Portugal (teclados) e Lelo Zaneti (baixo) é disponibilizado para download gratutito.

O primeiro disco de Dois lados – Um tributo ao Skank (Scream & Yell) soa homogêneo, bem acima da média artística de projetos do gênero. Com exceção do cantor gaúcho Jéf, que dá voz à balada Sutilmente (Samuel Rosa e Nando Reis, 2008) em tom similar ao registro feito pelo Skank no álbum Estandarte (2008), o elenco indie buscou outros caminhos para as músicas com resultados geralmente sedutores.

O cantor e pianista pernambucano Zé Manoel é o maior destaque deste primeiro volume do projeto idealizado e produzido por Pedro Ferreira. Manoel refina Tanto (I want you) (Bob Dylan, 1966, em versão em português de Chico Amaral, 1992) com a voz extremamente afinada e o toque preciso do próprio piano, elevando a canção – gravada pelo Skank no primeiro álbum, na fase inicial em que o som da banda ainda estava voltado para o reggae e para o pop tropical – à outra dimensão.

Com título que alude à música Três lados (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2000), um dos muitos sucessos do grupo, o tributo Dois lados expõe as várias faces do cancioneiro do Skank, composto por Samuel Rosa com diversos parceiros, sobretudo com Chico Amaral e Nando Reis. Se o grupo sergipano The Baggios demarca território nordestino ao defender A cerca (Samuel Rosa, Chico Amaral e Fernando Furtado, 1994) com pegada, o paulistano Francisco El Hombre remodela Pacato cidadão (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1994) com guitarras e latinidade.

Também de São Paulo (SP), a banda Quarup vence o desafio de alterar eventualmente a cadência de Vamos fugir (Gilberto Gil e Liminha, 1984) sem paradoxalmente escapar da levada envolvente do reggae lançado por Gilberto Gil em fase pop e regravado pelo Skank, 20 anos após o registro do cantor baiano, em gravação mais roqueira incluída na coletânea Radiola (2004).

Conterrâneo do Skank, o quarteto vocal mineiro Cobra Coral canta Esquecimento (Samuel Rosa e Nando Reis, 2014) com levada moderna e com elegantes fraseados que honram a história dos grupos vocais do Brasil. Também das Geraes, a banda de reggae Manitu faz Garota nacional (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1996) passar de forma menos sedutora por Dois lados. Em contrapartida, o baiano Teago Oliveira – da banda Maglore – dá a Esmola (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1994) tom moderno que realça a atualidade da letra.

Já a paranaense A Banda Mais Bonita da Cidade acentua a melancolia embutida em Canção noturna (Lelo Zaneti e Chico Amaral, 2000) em abordagem pessoal. Com o mesmo êxito, o paraibano Seu Pereira e Coletivo 401 repagina Ela me deixou (Samuel Rosa e Nando Reis, 2014) com som encorpado e canto que expõe a desilusão da música sem carregar no drama. Uma gravação à altura do Skank.

A capixaba Ana Muller soa altiva e, em clima folk, assume a paixão da balada Acima do sol (Samuel Rosa e Chico Amaral) no canto quente e no violão tocado na mesma temperatura. Em outra balada, Mil acasos (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2006) expõe a voz do gaúcho Esteban Tavares. Já o registro de Sem terra (Samuel Rosa e Chico Amaral, 1996) revolve raízes e batuques ancestrais na pegada afro-eletrônica da gravação feita pelo paulistano André Abujamra com produção do músico curitibano (radicado em São Paulo) Sergio Soffiatti.

Único nome do mainstream que figura no elenco de Dois lados, o duo de Tocantis AnaVitória interpreta a canção Amores imperfeitos (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2003) com delicadeza pop folk. Já Dois rios (Samuel Rosa, Nando Reis e Lô Borges, 2003) segue menos envolvente na correnteza eletrônica do arranjo da gravação de Wado, cantor catarinense radicado em Maceió (AL). A influência do Clube da Esquina no som do Skank afunda no registro.

No geral, o primeiro volume de Dois lados – Um tributo ao Skank cumpre bem a função de mostrar a extensão e a beleza do repertório de uma das bandas mais importantes do universo pop brasileiro em todos os tempos. As gravações originais do Skank já são perfeitas, mas as abordagens do tributo geralmente expõem mais lados de um repertório que resiste bem ao tempo e que se encontra entre o que de melhor foi produzido na música pop brasileira desde que o rock é rock. (Cotação: * * * *)

 

(Créditos das imagens: capa e contracapa de Dois lados – Um tributo ao Skank. Ilustração de Luyse Costa. Projeto gráfico de Mariana Viana)

 

Fonte/Reprodução: G1

 

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